Maravilhoso o Boléro de Maurice Ravel. Das versões disponíveis no YouTube, prefiro as que seguem abaixo.
O ballet Boléro, de Maurice Bejárt, infelizmente, por limite de estocagem no YouTube, é apresentado em duas parte, assim como a versão clássica regida pelo meu xará Herbert Von Karajan. Ao final dos vídeos a segunda parte é proposta pra acesso. Deleitem-se!!
Poesia, literatura, fotografia, jornalismo, questão agrária, filosofia, qualquer coisa, não necessariamente nessa ordem. Afinal, a vida é um todo entrelaçado.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Reforma agrária também é cultura II
O Festival Terra Viva Terra de Arte começou em um final de tarde do sertão cearense com um cortejo dos grupos culturais pelas ruas de Canindé. Conduzido por Amir Haddad (foto ao lado) e Júnior Santos (foto abaixo), grandes incentivadores do teatro de rua, o cortejo fez a festa no centro da cidade habituada às romarias a São Francisco.
À noite, nos palcos Mestre Neo Ramos e Patativa do Assaré, montados na Praça de Canindé, centro da cidade, grupos de teatro e de dança formados principalmente por jovens dos assentamentos mostraram a que vieram.

Impressionou-me em particular o espetáculo Ventos e Vales: Caminhos de Seguir, do grupo de dança Sementes da Terra, do assentamento Valparaíso-CE (foto ao lado), e o Tambor de Crioula , da comunidade quilombola de Filipa, vindos de Itaperucu Mirim-MA (foto abaixo).
Foi uma grande surpresa. Extasiante!
Há muito que manifestações artísticas não me tocavam assim.
Os últimos espetáculos que mexeram comigo foram feitos por portadores de necessidades especiais e internos de um hospital psiquiátrico. Nesses espetáculos de dança, teatro e exposição de pinturas a vida pulsava em formas estéticas que faziam eriçar todos os pelinhos da alma.
À noite, nos palcos Mestre Neo Ramos e Patativa do Assaré, montados na Praça de Canindé, centro da cidade, grupos de teatro e de dança formados principalmente por jovens dos assentamentos mostraram a que vieram.
Impressionou-me em particular o espetáculo Ventos e Vales: Caminhos de Seguir, do grupo de dança Sementes da Terra, do assentamento Valparaíso-CE (foto ao lado), e o Tambor de Crioula , da comunidade quilombola de Filipa, vindos de Itaperucu Mirim-MA (foto abaixo).
Foi uma grande surpresa. Extasiante!Há muito que manifestações artísticas não me tocavam assim.
Os últimos espetáculos que mexeram comigo foram feitos por portadores de necessidades especiais e internos de um hospital psiquiátrico. Nesses espetáculos de dança, teatro e exposição de pinturas a vida pulsava em formas estéticas que faziam eriçar todos os pelinhos da alma.
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Assim os espetáculos do Viva Arte, manifestação da vivência dos agricultores. De uma cultura forjada na luta pela terra e por cidadania, feita com alegria e criatividade, que busca forjar uma identidade em que a tradição é uma ponte para a criação do novo.
Assim os espetáculos do Viva Arte, manifestação da vivência dos agricultores. De uma cultura forjada na luta pela terra e por cidadania, feita com alegria e criatividade, que busca forjar uma identidade em que a tradição é uma ponte para a criação do novo.
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>>> Em breve estarei postando no Picasa uma série de fotos do Terra Viva.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Reforma agrária também é cultura
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...Após 10 dias de ocupação equivocada e irresponsável do Incra em Belém pelos sem-tora da Federação dos Trabalhadores na Agricultua Familiar (Fetraf), passei quatro dias em Canindé, cidade do sertão central do Ceará, fazendo a cobertura fotográfica do Festival de Cultura TERRA VIVA TERRA DE ARTE, de 25 a 28/11.
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O festival, em sua primeira versão, é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de seis anos pelo Projeto Cultura e Arte na Reforma Agrária, do Incra, e grupos culturais de assentamentos do Ceará.
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O festival, em sua primeira versão, é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de seis anos pelo Projeto Cultura e Arte na Reforma Agrária, do Incra, e grupos culturais de assentamentos do Ceará.
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Clique sobre as fotos para visualizar em tamanho maior.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Felipe

Foi num desses domingos em que o inverno faz uma pausa de nuvens opacas e sobem aos céus andorinhas em vôos espiralados. Uma tarde morosa de inverno. O céu se abriu e Felipe se foi, encoberto em nuvens translúcidas, adejando sobre a baía.
Na segunda, foram-se médicos cubanos em um vôo anônimo, no desvão da intolerância, enquanto flores e dizeres post-morten em um cemitério de Macapá ficaram lembrando a curta existência de um menino.
Com palavras tento estabelecer relações entre duas partidas aparentemente tão distintas e, no entanto, faces de uma mesma moeda, ou de um dado jogado não por acaso.
Recuo no tempo e o carro branco que dirijo avança trôpego sobre a linha da beira-rio; tudo me parece frágil ante a força da baía, em que sinto gritar a dor de Nete que chora, e o carro seguindo o fim de tarde, a tênue linha do horizonte a desfazer-se para deixar passar a noite. Temo as palavras, elas escapam-me entre as mãos e estou preso ao volante de um carro sem rumo.
A baía revolta bate contra o quebra-mar à beira da noite, ondas-dedos de água esfacelam-se em apelos inúteis, ou são meus olhos marejados de lágrimas e indignação. Na profusão da dor, o corpo convulso de Nete se debate contra meu peito como ondas encrespadas, o estertor da morte nos envolve num sofrimento indizível - ilhas flutuantes sacolejados numa baía de lembranças desesperadas de um menino pés descalços e tez negra que a indolência de um médico naufragou.
A indignação ganha nome como um barco chegando a um cais abandonado: Absurdo! Abs...urdo! Ab... surdo...
Quando me dou conta já não mais sigo a linha do rio. De pé, diante da baía, vejo um carro negro a despejar um ataúde, dores esvaindo-se em prantos. E penso na vida como um sonho que vivemos num lapso de tempo da criação. A morte, uma ausência que guardamos sob o tapete colocado na soleira de nossas casas. De repente, descubro que as palavras levam-me a um destino desconhecido, ao abandono dos sentidos, que a morte é dúvida na qual sempre findamos.
Mas por quê aos 11 anos de Felipe? se Felipe corria com a vida, leve como o vento. Por quê, numa noite que perdeu-se no registro de um hospital, um médico não deu um pouco do seu tempo para tocar o coração de Felipe? Um médico que não o ouviu respirar, deixando-o suspenso numa noite de inverno.
Uma medicina que não sente o pulso e o ritmo de vida de um menino, que agora jaz ali cercado de dor, dor e dor por todos os lados, serve a que e a quem?
Há algo de errado com os homens em branco despejados das faculdades...
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Move-me
I
Move-me a areia feita de pedras, sol e sal.
Movediça miragem de um deserto solitário,
onde se enterram segredos de conchas e estrelas.
Agonia-me a vida um mar profundo em que se afogam lembranças,
rastro inatingível de tristeza.
Minha vida é esse barraco abandonado na paisagem da minha janela,
de vidros estilhaçados e grades que me protegem do vazio e memórias alheias,
do nada que emerge da noite em lampejos de sombras e miados em cio,
de névoa envolvendo a cidade, alongando os dias,
- como a cortina que acoberta o passo de um bêbado trôpego no lixo da rua
a confundir a cor das folhas e o sentido das coisas.
II
As luzes frias postadas na rua me dão a falsa sensação de segurança.
O cheiro da terra pingada de chuva se mistura à fumaça em minha narina.
O vício é o vazio das coisas pintadas no claro-escuro da noite de minha janela.
Que sentido há na hera margeando calhas e cabos oxidados em busca do teto,
senão perder-se no abandono do casarão?
Qual o sentido da noite
outro que perseguir sonhos esquecidos no correr dos dias?
Move-me a areia feita de pedras, sol e sal.
Movediça miragem de um deserto solitário,
onde se enterram segredos de conchas e estrelas.
Agonia-me a vida um mar profundo em que se afogam lembranças,
rastro inatingível de tristeza.
Minha vida é esse barraco abandonado na paisagem da minha janela,
de vidros estilhaçados e grades que me protegem do vazio e memórias alheias,
do nada que emerge da noite em lampejos de sombras e miados em cio,
de névoa envolvendo a cidade, alongando os dias,
- como a cortina que acoberta o passo de um bêbado trôpego no lixo da rua
a confundir a cor das folhas e o sentido das coisas.
II
As luzes frias postadas na rua me dão a falsa sensação de segurança.
O cheiro da terra pingada de chuva se mistura à fumaça em minha narina.
O vício é o vazio das coisas pintadas no claro-escuro da noite de minha janela.
Que sentido há na hera margeando calhas e cabos oxidados em busca do teto,
senão perder-se no abandono do casarão?
Qual o sentido da noite
outro que perseguir sonhos esquecidos no correr dos dias?
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Sobre o MST e laranjas
O texto MST e laranjas, de Mauricio Caleiro, publicado no dia 08/10 no blog Cinema & Outras Artes , que reproduzo abaixo, é um dos mais interessantes que já li sobre um movimento social tão odiado em todo o país. Se os Caiados e os Abreus do latifúndio nacional já o leram, devem detestar ainda mais o MST.
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O MST é detestado por todos: da direita ruralista à esquerda chavista, passando por tucanos, petistas, psolentos, verdes, azuis e amarelos. Mesmo os que fingem apoiar o MST o detestam.
Isso porque há uma antipatia ancestral e inata contra o MST, esse arquétipo de nosso inconsciente coletivo, esse cancro irremovível que insiste em nos lembrar, mesmo nos períodos de bonança, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão e continuamos sendo uma porcaria de nação que jamais fez a reforma agrária.
O MST é o espelho que reflete o que não queremos ver.
Há duas questões, na vida nacional, que contradizem qualquer discurso político da boca pra fora e revelam qual é, mesmo, de verdade, a tendência ideologica de cada um de nós, brasileiros: a violência urbana e o MST. Diante deles, aqueles que até ontem pareciam ser os mais democráticos e politicamente esclarecidos passam a defender que se toque fogo nas favelas, que se mate de vez esse bando de baderneiros do campo, PORRA, CARAJO, MIERDA, MALDITOS DIREITOS HUMANOS!
O MST nos faz atentar para o fato de que em cada um de nós há um Esteban de A Casa dos Espíritos; há o ditador, cuja existência atravessa os séculos, de que nos fala Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca; há os traços irremovíveis de nossa patriarcalidade latinoamericana, que indistingue sexo, raça, faixa etária ou classe social:
O MST é o negro amarrado no tronco, que chicoteamos com prazer e volúpia.
O MST é Canudos redivivo e atomizado em pleno século XXI.
O MST é a Geni da música do Chico Buarque - boa pra apanhar, feita pra cuspir – com a diferença de que, para frustração de nossa maledicência, jamais se deita com o comandante do zeppelin gigante.
E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas!
E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica! Chega de impunidade! Como o João Dória Jr., cansei!
Jornalismo pungente
Afinal, foi tudo registrado em imagens – e imagens, como sabemos, não mentem. Estas, por sua vez, foram exibidas numa reportagem pungente do Jornal Nacional - mais um grande momento da mídia brasileira -, merecedora, no mínimo, do prêmio Pulitzer. Categoria: manipulação jornalística. Fátima Bernardes fez aquela cara de dominatrix indignada; seu marido soergueu uma das sobrancelhas por sob a mecha branca e, além dos litros de secreção vaginal a inundar calcinhas em pleno sofá da sala, o gesto trouxe à tona a verdade inextricável: os “agentes“ do MST são um bando de bárbaros.
(Para quem não viu a reportagem, informo,a bem da verdade, que ela cumpriu à risca as regras do bom jornalismo: após uns dez minutos de imagens e depoimentos acusando o MST, Fátima leu, com cara de quem comeu jiló com banana verde, uma nota de 10 segundos do MST. Isso se chama, em globalês, ouvir o outro lado.)
Desde então, setores da própria esquerda cobram do MST sensatez, inteligência, que não dirija seu exército nuclear assassino contra os pobres pés de laranja indefesos justo agora, que os ruralistas tentam instalar, pela 3ª vez, como se as leis fossem uma questão de tanto bate até que fura, uma CPI contra o movimento (afinal, é preciso investigar porque o governo “dá” R$155 milhões a “entidades ligadas ao MST”, mesmo que ninguém nunca venha a público esclarecer como obteve tal informação, como chegou a esse número, que entidades são essas nem qual o grau de sua ligação com o MST: O Incra, por exemplo, está nessa lista como ligado ao MST?).
A insensatez dos miseráveis
Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.
Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.
Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?
Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.
Para estes, resta, desde sempre, a mesma cova ancestral, com palmos medidas, como a parte que lhes cabe neste latifúndio.
Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação.
Mas os bárbaros, claro está, são o MST.
Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.
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O MST é detestado por todos: da direita ruralista à esquerda chavista, passando por tucanos, petistas, psolentos, verdes, azuis e amarelos. Mesmo os que fingem apoiar o MST o detestam.
Isso porque há uma antipatia ancestral e inata contra o MST, esse arquétipo de nosso inconsciente coletivo, esse cancro irremovível que insiste em nos lembrar, mesmo nos períodos de bonança, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão e continuamos sendo uma porcaria de nação que jamais fez a reforma agrária.
O MST é o espelho que reflete o que não queremos ver.
Há duas questões, na vida nacional, que contradizem qualquer discurso político da boca pra fora e revelam qual é, mesmo, de verdade, a tendência ideologica de cada um de nós, brasileiros: a violência urbana e o MST. Diante deles, aqueles que até ontem pareciam ser os mais democráticos e politicamente esclarecidos passam a defender que se toque fogo nas favelas, que se mate de vez esse bando de baderneiros do campo, PORRA, CARAJO, MIERDA, MALDITOS DIREITOS HUMANOS!
O MST nos faz atentar para o fato de que em cada um de nós há um Esteban de A Casa dos Espíritos; há o ditador, cuja existência atravessa os séculos, de que nos fala Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca; há os traços irremovíveis de nossa patriarcalidade latinoamericana, que indistingue sexo, raça, faixa etária ou classe social:
O MST é o negro amarrado no tronco, que chicoteamos com prazer e volúpia.
O MST é Canudos redivivo e atomizado em pleno século XXI.
O MST é a Geni da música do Chico Buarque - boa pra apanhar, feita pra cuspir – com a diferença de que, para frustração de nossa maledicência, jamais se deita com o comandante do zeppelin gigante.
E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas!
E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica! Chega de impunidade! Como o João Dória Jr., cansei!
Jornalismo pungente
Afinal, foi tudo registrado em imagens – e imagens, como sabemos, não mentem. Estas, por sua vez, foram exibidas numa reportagem pungente do Jornal Nacional - mais um grande momento da mídia brasileira -, merecedora, no mínimo, do prêmio Pulitzer. Categoria: manipulação jornalística. Fátima Bernardes fez aquela cara de dominatrix indignada; seu marido soergueu uma das sobrancelhas por sob a mecha branca e, além dos litros de secreção vaginal a inundar calcinhas em pleno sofá da sala, o gesto trouxe à tona a verdade inextricável: os “agentes“ do MST são um bando de bárbaros.
(Para quem não viu a reportagem, informo,a bem da verdade, que ela cumpriu à risca as regras do bom jornalismo: após uns dez minutos de imagens e depoimentos acusando o MST, Fátima leu, com cara de quem comeu jiló com banana verde, uma nota de 10 segundos do MST. Isso se chama, em globalês, ouvir o outro lado.)
Desde então, setores da própria esquerda cobram do MST sensatez, inteligência, que não dirija seu exército nuclear assassino contra os pobres pés de laranja indefesos justo agora, que os ruralistas tentam instalar, pela 3ª vez, como se as leis fossem uma questão de tanto bate até que fura, uma CPI contra o movimento (afinal, é preciso investigar porque o governo “dá” R$155 milhões a “entidades ligadas ao MST”, mesmo que ninguém nunca venha a público esclarecer como obteve tal informação, como chegou a esse número, que entidades são essas nem qual o grau de sua ligação com o MST: O Incra, por exemplo, está nessa lista como ligado ao MST?).
A insensatez dos miseráveis
Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.
Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.
Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?
Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.
Para estes, resta, desde sempre, a mesma cova ancestral, com palmos medidas, como a parte que lhes cabe neste latifúndio.
Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação.
Mas os bárbaros, claro está, são o MST.
Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Aeromoça
No avião, a tantos mil pés de altitude, descubro que existo porque vôo. Minha cabeça, ou melhor, o meu cérebro, é extensão do corpo do avião que plana sobre nuvens inconsistentes.
A força que me liga ao assento, sei, é a mesma que liga meu cérebro-corpo-avião à Terra: a gravidade. Daí veio a descoberta, conseqüência da primeira: sou dependente da mecânica do vôo.
E é assim que, contido nesse universo newtoniano, descubro a aeromoça, como num sonho metalingüístico.
Fantasma a assombrar os corredores? Átomos se recombinando? Ou anjo cujas asas lhe pregaram no peito?
Na paisagem interior do avião, a aeromoça é um mistério que conforta os medos, dissipa as inseguranças. É a realidade tangível do mito, superior a toda e qualquer mecânica. A aeromoça confunde-se com o avião, assim como este se confunde com as nuvens e os sonhos.
Afora os ansiosos que, por razões diversas de partidas e chegadas, e os morbidamente ligados à terra por alguma fobia ou trauma, muitos dormimos durante a viagem, crentes que um anjo nos vela.
Se é a aeromoça que fala nos interfones, mesmo que seja num francês sofrível, ou num inglês incompreensível, nos acalmamos, mas se é o comandante ou o co-piloto ficamos tensos à espera do pior; uma mensagem do tipo: Senhoras e senhores, lamentamos informar que um míssil vem em nossa direção. Por favor, apertem seus cintos de segurança e prestem atenção no aviso de não fumar. Em caso de aterrisagem forçada, nossas comissárias de bordo (outro nome que inventaram para as aeromoças) lhes mostrarão as saídas de emergência.
E aí temos a certeza - as aeromoças são anjos salvadores!
Talvez seja por isso que as cabines dos aviões, habitáculo dos comandantes, estejam sempre fechadas, herméticas a toda curiosidade dos passageiros. Elas, as cabines, fazem parte do estágio do sono em que não sonhamos, em que despertamos ao mais leve solavanco causado pela turbulência do vôo.
Ver o comandante desfilando pelos corredores do avião nos assusta, tal a visão de uma mula-sem-cabeça. A sua presença nos remete à idéia de dependência à maquina, aos temores do desafio do risco calculado, à projeção da fragilidade de nossas inteligências diante de forças além de nossas vontades.
E também, talvez, seja por isso que só nos lembramos do comandante quando chegamos sãos e salvos ao nosso destino, e até chegamos a aplaudi-lo.
Mas a aeromoça, ah, a aeromoça é aventura, sobrevôo de paises e cidades distantes que nunca conheceremos...
A força que me liga ao assento, sei, é a mesma que liga meu cérebro-corpo-avião à Terra: a gravidade. Daí veio a descoberta, conseqüência da primeira: sou dependente da mecânica do vôo.
E é assim que, contido nesse universo newtoniano, descubro a aeromoça, como num sonho metalingüístico.
Fantasma a assombrar os corredores? Átomos se recombinando? Ou anjo cujas asas lhe pregaram no peito?
Na paisagem interior do avião, a aeromoça é um mistério que conforta os medos, dissipa as inseguranças. É a realidade tangível do mito, superior a toda e qualquer mecânica. A aeromoça confunde-se com o avião, assim como este se confunde com as nuvens e os sonhos.
Afora os ansiosos que, por razões diversas de partidas e chegadas, e os morbidamente ligados à terra por alguma fobia ou trauma, muitos dormimos durante a viagem, crentes que um anjo nos vela.
Se é a aeromoça que fala nos interfones, mesmo que seja num francês sofrível, ou num inglês incompreensível, nos acalmamos, mas se é o comandante ou o co-piloto ficamos tensos à espera do pior; uma mensagem do tipo: Senhoras e senhores, lamentamos informar que um míssil vem em nossa direção. Por favor, apertem seus cintos de segurança e prestem atenção no aviso de não fumar. Em caso de aterrisagem forçada, nossas comissárias de bordo (outro nome que inventaram para as aeromoças) lhes mostrarão as saídas de emergência.
E aí temos a certeza - as aeromoças são anjos salvadores!
Talvez seja por isso que as cabines dos aviões, habitáculo dos comandantes, estejam sempre fechadas, herméticas a toda curiosidade dos passageiros. Elas, as cabines, fazem parte do estágio do sono em que não sonhamos, em que despertamos ao mais leve solavanco causado pela turbulência do vôo.
Ver o comandante desfilando pelos corredores do avião nos assusta, tal a visão de uma mula-sem-cabeça. A sua presença nos remete à idéia de dependência à maquina, aos temores do desafio do risco calculado, à projeção da fragilidade de nossas inteligências diante de forças além de nossas vontades.
E também, talvez, seja por isso que só nos lembramos do comandante quando chegamos sãos e salvos ao nosso destino, e até chegamos a aplaudi-lo.
Mas a aeromoça, ah, a aeromoça é aventura, sobrevôo de paises e cidades distantes que nunca conheceremos...
terça-feira, 21 de julho de 2009
É bem ali...

- A ilha que procuras é aquela do outro lado do rio. Nunca te esqueças, menino, dos que por aqui fizeram a travessia.
Ensina-me o ancião, sentado à sombra do mercado municipal de Abaetetuba.
Bem ali, onde as águas dos rios Tocantins e Abaeté se encontram para formar a Baia de Marapatá, ele me indica o longo caminho percorrido.
Não te esqueci, velho. Teu sorrisso melancólico de uma juventude quilombola; tuas mãos calosas construtoras de destinos agora percorrem caminhos que jamais imaginaste.
Transformei-te em chuvas quânticas que molham redes atadas nos tantos cantos do mundo; em ventos de elétrons portadores de histórias.
Agora, velho quilombola, teu gesto, teu sorriso, teu nome forte e valente de origem, Abaeté, são lembranças desse mundo efêmero...
(Foto feita em 17/07/09 durante reportagem para o Incra, sobre projeto agroextrativista criado na ilha de Campompema, município de Abaetetuba-PA. Modelo Canon EOS Digital Rebel; 1/80s; f /6,3; 55 mm; ISO 100)
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Abaixo-assinado em apoio ao jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto
Além da solidariedade financeira ao Jornal Pessoal , através de depósitos de qualquer quantia na conta publicada no post anterior, os apoiadores de Lúcio Flávio Pinto criaram um blog que está reunindo adesões a um abaixo-assinado contra a decisão togada do Meritíssimo das Chagas.
Para assinar basta postar aqui um comentário com nome e RG.
Assine.
ABAIXO-ASSINADO EM APOIO AO JORNALISTA PARAENSE LÚCIO FLÁVIO PINTO
O repórter e editor do Jornal Pessoal, de Belém do Pará, Lúcio Flávio Pinto, foi condenado pelo juiz Raimundo das Chagas Filho, da 4ª Vara Cível da capital, a pagar uma indenização de R$ 30 mil aos irmãos Romulo Maiorana Júnior e Ronaldo Maiorana, proprietários das Organizações Romulo Maiorana, uma das empresas de comunicação mais influentes da Região Norte, cuja emisssora de TV é afiliada à Rede Globo. A sentença, expedida no último dia 6 de junho de 2009, refere-se a uma das quatro ações indenizatórias movidas pelos irmãos contra o jornalista que, em 2005, publicou artigo em um livro organizado pelo jornalista italiano Maurizio Chierici, depois reproduzido no Jornal Pessoal, no qual abordava as atividades de contrabandista do fundador das ORM, Romulo Maiorana, nos anos de 1950, o que teria motivado a ação, pois os irmãos consideraram ofensivo o tratamento dispensado à memória do pai. Além da indenização por supostos danos morais, o juiz ainda obriga o jornalista a não mais referir-se aos irmãos em seus próximos artigos.
Lúcio Flávio Pinto, de 59 anos, em quatro décadas de jornalismo é um dos profissionais mais respeitados no Brasil e no exterior. Seu Jornal Pessoal resiste, de forma alternativa, há 22 anos, sem aceitar patrocínio ou anúncios, garantindo a independência de seu editor frente aos temas públicos do Pará, sobretudo na seara política. Por sua atuação intransigente frente aos desmandos políticos, às injustiças sociais e ao desrespeito aos direitos humanos, recebeu prêmios internacionais importantes: em 1997, em Roma, o prêmio Colombe d’oro per La Pace; e em 2005, em Nova Iorque, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection). Além disso, é premiado com vários Esso. É também autor d e 14 livros, tendo como tema central a Amazônia, sendo os mais recentes “Contra o Poder”, “Memória do Cotidiano” e “Amazônia Sangrada (de FHC a Lula)”.
Esse fato demonstra o que significa fazer jornalismo de verdade na capital do Pará: uma condenação.
Por isso, nós, abaixo-assinados, solidarizamo-nos com Lúcio Flávio Pinto, pedindo a revisão de sua condenação em nome da democracia e da liberdade de pensamento.
Para assinar basta postar aqui um comentário com nome e RG.
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ABAIXO-ASSINADO EM APOIO AO JORNALISTA PARAENSE LÚCIO FLÁVIO PINTO
O repórter e editor do Jornal Pessoal, de Belém do Pará, Lúcio Flávio Pinto, foi condenado pelo juiz Raimundo das Chagas Filho, da 4ª Vara Cível da capital, a pagar uma indenização de R$ 30 mil aos irmãos Romulo Maiorana Júnior e Ronaldo Maiorana, proprietários das Organizações Romulo Maiorana, uma das empresas de comunicação mais influentes da Região Norte, cuja emisssora de TV é afiliada à Rede Globo. A sentença, expedida no último dia 6 de junho de 2009, refere-se a uma das quatro ações indenizatórias movidas pelos irmãos contra o jornalista que, em 2005, publicou artigo em um livro organizado pelo jornalista italiano Maurizio Chierici, depois reproduzido no Jornal Pessoal, no qual abordava as atividades de contrabandista do fundador das ORM, Romulo Maiorana, nos anos de 1950, o que teria motivado a ação, pois os irmãos consideraram ofensivo o tratamento dispensado à memória do pai. Além da indenização por supostos danos morais, o juiz ainda obriga o jornalista a não mais referir-se aos irmãos em seus próximos artigos.
Lúcio Flávio Pinto, de 59 anos, em quatro décadas de jornalismo é um dos profissionais mais respeitados no Brasil e no exterior. Seu Jornal Pessoal resiste, de forma alternativa, há 22 anos, sem aceitar patrocínio ou anúncios, garantindo a independência de seu editor frente aos temas públicos do Pará, sobretudo na seara política. Por sua atuação intransigente frente aos desmandos políticos, às injustiças sociais e ao desrespeito aos direitos humanos, recebeu prêmios internacionais importantes: em 1997, em Roma, o prêmio Colombe d’oro per La Pace; e em 2005, em Nova Iorque, o prêmio anual do CPJ (Comittee for Jornalists Protection). Além disso, é premiado com vários Esso. É também autor d e 14 livros, tendo como tema central a Amazônia, sendo os mais recentes “Contra o Poder”, “Memória do Cotidiano” e “Amazônia Sangrada (de FHC a Lula)”.
Esse fato demonstra o que significa fazer jornalismo de verdade na capital do Pará: uma condenação.
Por isso, nós, abaixo-assinados, solidarizamo-nos com Lúcio Flávio Pinto, pedindo a revisão de sua condenação em nome da democracia e da liberdade de pensamento.
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